16.12.2009
As novidades surgem e desaparecem com tanta rapidez ultimamente – quem ainda se lembra da inglesa Susan Boyle ? – que se corre o risco de achar que tudo virou modismo. O Twitter, por exemplo. Há alguns meses, era quase obrigatório se cadastrar, até para entender como funcionava a história dos 140 caracteres. Mas nem todo mundo têm disponibilidade de compartilhar, a todo momento, o que está fazendo ou pensando. Por isto, as taxas de desistência são elevadas, o que reforçou a percepção de que poderia se tratar de mais um fenômeno passageiro. Outra daquelas iniciativas da Internet que mobilizam os adolescentes, mas acabam se revelando incapazes de gerar receita e modelos de negócios sustentáveis. Quem sabe um novo Second Life?
Mas a trajetória do Twitter, em pouco mais de um ano de existência, indica que vale acompanhar com atenção seus desdobramentos, pelo potencial de indicar tendências na evolução da web. Tanto que a concorrência – incluindo o Google – já corre para competir com serviços semelhantes. Como alerta o próprio Biz Stone, um dos criadores do microblogging, ainda é cedo para concluir qual a nova dinâmica que ele introduziu na rede. Mas já ficou claro que não se trata de mais uma rede social, como Myspace, Facebook ou o Orkut, voltadas principalmente para relacionamentos pessoais. Ao integrar o compartilhamento de notícias de todo tipo, e todo canto do mundo, com um poderoso serviço de busca, o Twitter pôs em evidência a web em tempo real. Com ele, tornou-se possível descobrir instantaneamente, sem mediação da mídia, o que está acontecendo em qualquer parte do planeta – nas passeatas de protesto no Irã, no velório do Michel Jackson, ou na beira do Rio Hudson em meio a um acidente aéreo, como aconteceu em janeiro, após o pouso forçado do avião da U.S. Airways. Mas dá para saber também o que está se passando no seu bairro, num ponto de encontro com amigos ou naquela reunião importante para a qual você vai chegar atrasado – notícias tão valiosas para as pessoas quanto as do noticiário global..
É esta nova fronteira da web desbravada pelo Twitter, muito mais do que os seus 54 milhões de usuários, que fazem brilhar os olhos dos investidores. Na última rodada de captação, a empresa foi avaliada em um bilhão de dólares, 4 vezes mais do que na rodada anterior, apenas seis meses antes. O Wall Street Journal considera que a cifra pode chegar a US$ 2,7 bilhões e colunistas influentes de tecnologia falam em até US$ 5 bilhões. Isto para uma empresa com 75 funcionários, ainda em busca de fontes de receita. Contrariando expectativas, e alegando não querer desvirtuar o espírito do serviço, nem invadir o espaço dos usuários, o Twitter ainda não se abriu para formatos tradicionais de propaganda online. Optou por explorar abordagens comerciais diferenciadas, com produtos como certificação de empresas e geração de inteligência de marketing.
Pois é cada vez mais evidente seu potencial para as marcas. Um estudo da Universidade da Pennsilvânia revelou que pelo menos 20% dos twits se referem a produtos e serviços, comentários que influenciam fortemente a opinião de outros consumidores. A TV1.Com, aliás, tem um case ilustrativo. Meses atrás, o monitoramento das redes localizou no Twitter a queixa de um consumidor que comprara um produto com marca vencida. Isto permitiu que o varejista providenciasse a remessa de uma cesta de novos produtos com um pedido de desculpas e, em apenas 7 horas, o reclamante postou nova mensagem elogiando a marca. Biz Stone cita o exemplo do cinema para enfatizar este papel de influence marketing do microblogging. Hoje, mal começam a rolar os créditos dos filmes nos cinemas, muita gente se põe a twittar impressões, geralmente mais influentes para os que as seguem na rede do que as resenhas profissionais da grande mídia. Mas Stone e seus jovens sócios californianos se dizem visionários e humanistas, sonham com desdobramentos mais nobres para sua invenção. Um mundo cada vez mais transparente, em que o acesso e compartilhamento de informações permitirá encontrar novas saídas para os problemas intratáveis de sempre.
Por Selma Santa Cruz
Sócia-diretora de Planejamento do Grupo TV1 Comunicação e Marketing