5.01.2010
Quem ainda se lembra da polêmica que, na década de 70, opôs “apocalípticos e integrados”, como descrito por Umberto Eco no célebre livro com este título? Para os integrados, as mídias de massa seriam inerentemente democratizantes, por disseminar a cultura dos países avançados. Já os apocalípticos viam na televisão, no cinema e na publicidade uma forma de imperialismo cultural, capaz de manipular a opinião pública e uniformizar o pensamento. Nesta virada de década, em que parecemos cruzar um ponto de não retorno em direção à era digital, os conceitos de Eco ganham atualidade em uma nova roupagem: agora são os entusiastas da rede e seu potencial empoderador contra os pessimistas, preocupados com os riscos à privacidade e à cultura.
Ninguém mais duvida, a esta altura, de que vivemos uma revolução. Ou “apenas uma revolução“, como sugere o profeta da computação em nuvem, Nicholas Carr, ao comparar as rupturas provocadas pela Internet com as da eletricidade, no começo do século XX. Também já ficou evidente que os meios digitais não mudam apenas a comunicação, mas redimensionam todas as esferas da vida, inclusive, sugerem alguns, o funcionamento dos nossos cérebros. À medida em que interagimos com a rede, diluiriam-se os limites entre nossa mente e o “cérebro” coletivo, o que nos tornaria uma espécie de híbridos, ou pós- humanos, como imaginado em Neuromancer, o romance que inspirou Matrix.
Não surpreende, portanto, que, após o deslumbramento inicial com a transferência de poder para consumidores e cidadãos propiciada pela Web , ganhem destaque algumas perspectivas mais sombrias. Primeiro, chamou-se a atenção para a mediocridade dos conteúdos gerados pelos usuários. Agora, alerta-se para o risco do fim do pensamento como o conhecemos. Viciados nas facilidades do Google e da Wikipedia, condicionados pela fragmentação do hipertexto, estaríamos gerando uma cultura mais rasa que a das gerações anteriores – ou seja, emburrecendo. Para que se dar ao trabalho de memorizar e refletir se as informações estarão sempre na rede, ao alcance de um clique?
Outra crítica refere-se às ameaças à privacidade e à crescente concentração de poder nas mãos de algumas empresas. Em troca de uma capacidade de busca mais qualificada, de serviços e produtos mais personalizados, passamos a disponibilizar na rede uma quantidade cada vez maior de informações pessoais. A contrapartida é o cruzamento destas informações em bancos de dados progressivamente mais “inteligentes” e sua utilização quase sempre à revelia dos usuários – ainda que estes possam ter sido consultados, entre um clique e outro, em formulários pré-configurados para autorização automática.
Por esta ótica, em vez de mais liberdade e democracia, como sugeria a promessa inicial da Internet, poderíamos estar ingressando numa época de maior controle e centralização da informação. Um dos símbolos desta ameaça seria a onipresença do Google, como sugere o novo bestseller de Ken Auletta, Googled - The End of the World as We Know It. Até pouco tempo um ícone da cultura libertária da web, o Google assusta por avançar com voracidade sobre quase todas as frentes da vida digital. Como se não bastasse o poder de direcionar o acesso de centenas de milhões de internautas aos conteúdos da rede, após a aquisição da DoubleClick, a empresa passou a dominar também a publicidade online - já responde por 40% dos US$ 23 bilhões investidos nos Estados Unidos e pela mesma proporção dos US$ 54 bilhões em âmbito mundial. Está desenvolvendo seu próprio Browser, planeja digitalizar 20 milhões de livros, criou um sistema que identifica os estabelecimentos comerciais mais procurados em cada localidade, terá uma enciclopédia para concorrer com a Wikipedia e prepara para este ano o lançamento de um celular.
A disputa por poder está na essência das revoluções e as mudanças impostas pelo digital vêm multiplicando conflitos em vários mercados, com cada player tentando garantir o máximo de espaço, enquanto não se legisla sobre novas regras. Ao que tudo indica, 2010 será um ano crítico para a configuração destes novos cenários. E para enxergarmos, com mais clareza, os ganhos e perdas com a rede. A tecnologia, afinal nunca é boa ou má em si mesma. Tudo depende do uso que fizermos dela.
Selma Santa Cruz
Sócia-diretora de Planejamento do Grupo TV1 Comunicação e Marketing
selmascruz@grupotv1.com.br
Artigo publicado no Meio & Mensagem de 04/01/2010.